sábado, 27 de agosto de 2011

DENTRO DE UM ABRAÇO - MARTHA MEDEIROS



Quem bem me conhece sabe que tenho o abraço como o gesto de carinho por excelência. Há quem discorde, tentando me demover da idéia, abrindo um debate em favor do beijo. Sim, beijar também é um belo gesto. Mas o meu preferido foi, é e sempre será o abraço. E abraço dos bons: apertado e um pouco longo. Não gosto do abraço-faz-de-conta onde os corpos repentinamente se atraem para, da mesma forma, se repelirem, num átimo de segundo. Muitas pessoas são afáveis ao abraço que costumo dar. Outras, nem tanto. Mas, longe de querer constranger o outro, no meu abraço sempre está embutida a mensagem 'eu te aceito', 'eu te acolho'. Essa mensagem só será eficaz se o meu gesto for pra valer, não for morno. É preciso não deixar dúvidas do acolhimento. Assim como também um aperto de mão tem que conter o aperto, o abraço tem que, verdadeiramente, conter o enlaçamento dos corpos, já que as almas por eles são representadas.
Há braços, amigos!


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Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estréia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Meu palpite: dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz humana nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo. Mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. ...recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.


Serviço: FELIZ POR NADA, Martha Medeiros. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.




3 comentários:

  1. Incrível, como essas "deusas" das palavras conseguem expressar de forma tão iluminada a essência de um abraço...Fantástico!!!

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  2. D++++++++++++++++++++++++.

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  3. D+++++++++++++++++++++++++++

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